Amor

O apego é uma avareza do amor porque o amor é acima de tudo generosidade.

Trabalho

“Aqueles que querem o bem dos trabalhadores deveriam preocupar-se mais com a obtenção de um bom trabalho, que é o primeiro dos seus bens, do que com um bom salário, boas férias, boas reformas.” – Lanza del Vasto, Peregrinação às Fontes

Europa

“Os costumes e os hábitos mentais da Europa com o encadeamento lógico das misérias, das fealdades e das perturbações merecidas constituem um sistema que uns mantêm por vontade e convicção, outros por consentimento.” – Lanza del Vasto, Peregrinação às Fontes

Jejum

5 de março de 2013

O meu jornal preferido faz anos e, para assinalar a data, incluiu na edição de hoje umas garatujas sobre as fotografias, assim como quando estamos cismáticos acerca de tudo e fazemos uns rabiscos em qualquer papel que nos apareça pela frente. Os jornalistas também estão e eles sabem muito mais do que o que escrevem. Mas este jornal várias vezes distinguido pelo seu design podia, e devia, ter sido mais inovador e presentear-nos, e já agora a mim que também faço anos e desejo que o meu dia seja pelo menos melhor que o de ontem, com algo mais agradável de se ver. Para desagradável já basta a realidade do momento e as notícias que enxameiam os canais da comunicação social durante todo o santo dia. Podiam, por exemplo, pedir colaboração aos muitos artistas desempregados deste país que o resultado seria muito melhor e mais representativo da sociedade que um jornal deve retratar. Mas enfim eles é que sabem(?).

As notícias são, na sua maioria, um completo desastre. Eis alguns exemplos:
– Portugal, um país que se esvaziou
– Um país a ameaçar morrer de velho
– A crise somos nós próprios
– “Como é que a gente pode aguentar mais se o dinheiro já não chega?”
– As taxas dos impostos subiram, as receitas fiscais nem por isso
– Consumo racionalizou-se mas alimentação saudável é inalcançável para muitos
– Os engenheiros que exportam cálculos sobre o stress da barriga de um avião militar (1)
– As pessoas estão casadas até que o banco as separe
– Mário era empresário e faliu. Agora não pode ser dono de nada
– A cultura foi sempre um parente pobre e a crise só tornou isso mais grave
– O desporto tremeu mas está a conseguir resistir ao colapso
– Relação acusa juízes do caso Rui Pedro de erros “ostensivos” e especulação (2)
– Secretário das Comunidades visita Angola em clima de “crispação”
– “Fogo posto” destrói 15 barracas sob a VCI
– Soares dos Santos e Belmiro de Azevedo aumentam fortunas (3)
– Espanha com mais de 5 milhões de desempregados
– A criatividade portuguesa foi distinguida pela UE (4)
– “Este tempo faz as cabeças feias!” (5)
– Atleta toto-o-terreno chegou ao topo: Sara Moreira (6)
– “A imprensa é a imensa e sagrada locomotiva do progresso” (7)

(1) Alta matemática e tecnologia de ponta de uma empresa de jovens engenheiros da Maia. E “stress da barriga” não é abstrato. Barriga é muito concreto, é donde viemos.
(2) Este processo, de uma criança de 11 anos desaparecida há  15, é sintomático do estado miserável da nossa justiça.
(3) Tanta riqueza num tempo de tanta pobreza e choca!
(4) Pudera, se não fossemos minimamente criativos estavamos lixados.
(5) Um velhinha a sair do café hoje de manhã.
(6) A melhor das duas ou três boas notícias da edição de hoje.
(7) Victor Hugo

A imprensa atual faz-me lembrar aquelas pessoas que se entretêm a comentar as suas doenças e desencantos: oh, isso não é nada, eu estou muito pior, o meu problema é muito mais raro e grave, dizem que não tem solução, enfim, todos temos que morrer de alguma coisa!

The Merton Prayer

MY LORD GOD, I have no idea where I am going. I do not see the road ahead of me. I cannot know for certain where it will end. Nor do I really know myself, and the fact that I think I am following your will does not mean that I am actually doing so. But I believe that the desire to please you does in fact please you. And I hope I have that desire in all that I am doing. I hope that I will never do anything apart from that desire. And I know that if I do this you will lead me by the right road, though I may know nothing about it. Therefore I will trust you always though I may seem to be lost and in the shadow of death. I will not fear, for you are ever with me, and you will never leave me to face my perils alone.

• Thomas Merton, “Thoughts in Solitude”

Falando de impunidade PEC IV

Passaram apenas 18 meses desde que PSD, PP, PCP, BE e PEV se uniram para chumbar o pacote de medidas acordado pelo Governo com o BCE e a UE para garantir que Portugal não seria o terceiro país do euro a recorrer a um resgate financeiro. O chumbo, era sabido, implicaria a demissão do Executivo socialista e, no clima de pressão dos mercados financeiros sobre as dívidas soberanas, o resgate.
Na Alemanha, Merkel deu largas à sua fúria num discurso no parlamento, criticando o chumbo do pacote que tinha, frisou, o apoio do BCE e da UE. Os mesmos BCE e UE aos quais o governo demissionário, perante o disparar dos juros, foi obrigado menos de um mês depois a pedir ajuda financeira de emergência.
Toda a gente está recordada destes factos; como toda a gente terá presente que o motivo invocado pela oposição para recusar as medidas e derrubar o Governo foi um alegado “excesso de austeridade sobre as pessoas”. Afinal, tudo isto se passou apenas há ano e meio. E levou só um ano e meio para se tornar claro – para aqueles para quem não o foi logo – que não existia em nenhum dos partidos que chumbou o PECIV outro propósito que não o de derrubar o Governo, custasse o que custasse, e desencadear eleições. O PSD e o PP fizeram-no porque esperavam, como sucedeu, ter votos suficientes para governar. O PCP, o BE e o PEV fizeram-no porque tinham a esperança de roubar votos ao PS e porque sabem que quanto mais à direita for o Governo mais têm possibilidades de os angariar. Ninguém, nestas cinco agremiações políticas, perdeu um minuto a pensar nos terríveis custos, para o País, desse ato. Ninguém se ralou com o expectável reforço da austeridade de que a Grécia e a Irlanda eram quadro vivo; ninguém quis sequer saber do que mais um resgate significava para a UE e para o euro. Ninguém pensou em responsabilidade, em solidariedade, em nós – ninguém, a começar pelo locatário de Belém.
Portugal podia, mesmo com o PECIV aprovado, ter sido, mais tarde, forçado a pedir um resgate? Não sabemos. Não sabemos o que teria sucedido se em vez de um Cavaco tivéssemos um presidente e em vez de um Passos e um Portas, um Jerónimo e um Louçã, gente mais ralada com os portugueses do que com ganhos partidários. O que sabemos é o que sucedeu. Que, a três meses do fim do ano, não fazemos ideia de qual o défice com que aí vamos chegar, nem de como será possível atingir a meta para 2013; que Cavaco humilhou e desautorizou o primeiro-ministro, erigindo o Conselho de Estado em poder executivo; que temos um Governo zombie; que o clamor da rua sobe e que o discurso infeccioso contra “os políticos” e a democracia cresce.
Que no meio disto a ministra da Justiça comente buscas em casa de ex-governantes como “o fim da impunidade” é um paroxismo de ironia. Cuidado, muito cuidado com o que se deseja. A nossa história recente deveria ter-nos ensinado pelo menos isso.
Fonte DN